Há algum tempo atrás não estava claro. Em um dia qualquer, no final da tarde, você estava sentada em frente à mesa do Renato. Naquele momento eu voltava do laboratório 1 depois do meu turno, você ouvia um daqueles famosos monólogos intermináveis e eu me perguntava desinteressado, “Quem é ela?”, embora a resposta fosse óbvia. “Então a nova contratada é uma mulher”. Te olhei como olho pra qualquer pessoa, indiferente, um pouco curioso, mas não pude ver teu rosto. Assinei meu ponto, falei com o pessoal e fui assistir a minha aula.
Talvez não tivesse escolha, é verdade, afinal nós trabalharíamos juntos, mas senti que deveria me aproximar. Laboratórios 5 e 6, todos pareciam querer conhecer a nova estagiária. Sempre tinha alguém na tua sala. Ao meu ver, sempre tinha alguém com segundas intenções na tua sala. E eu achei melhor assim, não queria ter que chegar e conversar diretamente contigo sozinha. Parte dessa atitude foi justamente para evitar esse tipo de pensamento, não queria que pensassem que eu estava dando em cima de ti. Mas quando ouvi tua voz, me apaixonei. Eu nem te conhecia, mesmo assim, fiquei imaginando o quão legal você poderia ser... Nesse dia eu falei pros meus amigos mais íntimos: “Hoje conheci uma pessoa como nenhuma outra”. E eu não poderia estar mais certo disso.
Te via sempre quieta, e eu entrava no laboratório, procurando tuas palavras. Tinha ciúmes de ti com os professores do Ver-O-Sol. Alimentei um sentimento só meu, não porque pretendia compartilhar contigo, mas porque eu gostava de sentir. Percebi o quanto era bom ficar sozinho contigo, ainda que nenhum de nós falasse, sempre existia 50% de chances de que aquele silêncio grandioso fosse quebrado pela voz que eu mais amo nesse mundo.
Naquela época eu já sentia que te reconhecia de longa data, parecia mais do que natural estar contigo. Embora soubesse que você não é uma pessoa solitária, te vi desse modo, o que me servia de incentivo pra me aproximar mais... Demorou muito pra que despertasse em mim a vontade de ficar contigo. Na época, todas as minhas aulas eram perto, eu podia revezar meu tempo entre a aula e a tua presença. Lembro que naquele tempo eu era bem mais calado do que sou hoje (não me pergunte por que isso mudou, pois não sei dizer).
E então você foi pra “longe”, um dos laboratórios mais afastados. E eu não poderia mais ter ver habitualmente. Somente durante alguns breves instantes, quando você ia pro suporte antes de substituir o Pietro no lab ou nos sábados. Sempre quis estar por perto, tomando cuidado pra que ninguém suspeitasse que eu tivesse algum interesse que não fosse tu amizade. Como resultado de toda essa cautela, acabei me afastando demais. Era cada vez mais difícil conversar contigo. O segundo andar da FACI IV perdeu um pouco da graça pra mim. O sentimento que tinha por ti não era forte, mas sentia tua ausência. Eu não tinha mais o que fazer naquela sala.
E então o tempo passou. Quantos meses se foram até que o Renato me mandou pro laboratório de engenharia. Pude passar mais tempo contigo, te ouvir mais vezes, notar quanta coisa fazia eu me sentir em casa perto de ti. Aos poucos fui percebendo que o que eu sentia já não era tão pequeno, tomou proporções que eu não imaginava.
Agora que tudo aconteceu posso repetir: nada mudou, só cresceu. Sou grato por tudo que você me proporcionou, muito mesmo. Tenho tanto a dizer, mas por aqui não consigo... Ainda teremos tempo, eu espero.
Te amo.
Feliz aniversário!
Yuri
P.S.
Olha na minha mochila. Ta na salinha aí do lab 7. O que você encontrar no bolso maior é seu :P